Insónia…

Envolta num lençol de cetim que lhe acariciava a pele nua, sedosa, debatia-se com a falta de sono.

Era assaltada por pensamentos constantes que não lhe davam sossego, nem a deixavam fechar os olhos. E em silêncio observa…

Tudo lhe parece frio, até o tempo que demora a passar. Tenta aquecer a alma com um livro, perdendo-se nos meandros de uma intrincada história, que acaba por descobrir que é uma cópia perfeita da sua, até nisso a vida joga contra ela…

Frustrada, fecha os olhos, precisava de se encontrar, onde quer que se tenha perdido dela própria, e voltar a ser gente, a ser mulher, e sentir…

É invadida pelo cheiro a terra, molhada pelas gotas que caem copiosamente apesar do calor, que já nem sabia se era dela ou se da temperatura que se fazia sentir, e tudo lhe continuava a parecer tão frio, até adormecer, embalada pelo som da chuva que teimosamente brotava.

E sonha…

De repente tudo o que a atormentava tinha desaparecido, todos os seus medos e dores, e sentia-se livre, diferente, entregue aos desejos e vontades, talvez instigados pelo toque do cetim na sua nudez, que a despertava internamente, ou pelo das mãos que não as dela, que sentia percorrerem-lhe o corpo de forma provocadora, embora não passasse disso, não eram reais, mas sentia-as.

E o abraço…

Nesse abraço sentido, fundiram-se as almas, sabores e cheiros, vontades que fariam corar o Diabo e desejos que se incendiavam e tornavam capazes de pegar fogo ao Inferno.

Entregou-se ao prazer e calor desse abraço, esse que de tão intenso ser já se tinha transformado em real, agora eram as suas mãos, o seu toque…

E libertou-se!

De tudo!

Caindo num sono profundo e reparador que a fez acordar com um sorriso nos lábios, feliz, e muito mais ela…

Aquela que se tinha perdido há muito e lentamente se voltava a encontrar…

Miss Kitty

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Iludida…

Pensamentos castrados.
Desejos ocultados.
De mágoas rasgados.
Que me atormentam.

Na dor do sentir.
De que quero fugir.
Teimam em iludir.
Inconscientes, alimentam.

E uma esperança vã,
que em nada é sã,
me desperta pela manhã.

Dá à vida cor,
ameniza-me a dor,
da ilusão desse amor.

Miss Kitty

Dor…

Dói…

Perco o pouco que me resta do nada que tenho, e grito em silêncio.

Desfaço-me em mil pedaços de letras que, como as gotas do orvalho, deslizam lentamente pela pele, queimando cada centímetro por onde passam como lava, até desaguarem na ponta dos dedos em palavras que me rasgam por dentro, onde a vida perde o encanto e cor, e sou só mais um corpo.

Morro lentamente a cada frase e nas sinestesias da vida, cheiros e sabores de poemas onde me perco, porventura castigo de ser intensa e sentir tudo o que digo, mas calam-me…

Matam-me aos poucos como tortura, e assim, inesperadamente e sem explicação, todos os pedacinhos de coração voltaram para onde estavam antes de me desfazer, para o nada, porque nem as palavras que escrevo me ressuscitam, até que, quem sabe um dia, se voltem a juntar de novo, e que dessa vez façam lindos poemas, doces e coloridos com cheiro a reviver, porque na vida o tudo e o nada nunca são para sempre e até o grito silencioso por vezes se cala…

 

Miss Kitty

… e esperava.

Subia a rua vagarosamente, cortando o som do silêncio da madrugada chuvosa onde tudo parecia chorar, até as pedras da calçada por onde arrastava os pés, estavam inundadas de tristeza.

Por vezes demorava o passo, disperso em pensamentos que o assaltavam ao reparar em qualquer pormenor da viela por onde passava, perdido em pensamentos e nele próprio.

Ao longo da vida nunca se tinha encontrado, faltava-lhe algo que o engrandecesse, fortificasse, e restituísse aquela alegria de viver só então sentida na sua infância… Faltava-lhe o amor.

Amor verdadeiro, aquele que nunca tinha sentido com nenhuma das muitas mulheres que já tinha tido. Muitos corpos, peles, aromas, que lhe tinham passado entre os dedos, mas resumia-se a isso, ao prazer instantâneo do toque numa noite para combater a solidão.

Faltava-lhe aquela… a que lhe conseguia tocar a alma, aí sim, seria feliz.

Mas não desistia, continuava a subir a rua morosamente na esperança vã que a chuva da madrugada deixasse de ser um choro de tristeza e um qualquer virar de esquina lhe trouxesse o impossível.

E porque até o impossível é possível… continuava a subir, e a esperar…

Miss Kitty

Banho-me…

Banho-me, e na água que me invade a pele e escorre pelo corpo como o desejo que vai aflorando e deambulando entre jeitos e toques, procuro incessantemente desaguar, e amarar num porto seguro com sabor a lar.
Cada gota que me percorre arrepia, desperta, e desfolha mais uma página do livro dos sentires onde tudo se torna intenso e vivido e a vida faz sentido.
É tudo uma questão de ser, não de existir, porque ao ser sinto, e tal como a água que me banha sou rio calmo ou mar revolto.
E grito…
Em silêncio, sem que ninguém perceba, para tentar afastar os pensamentos que tanto me fazem sentir, nesta dúvida constante de quereres ou não quereres, de me seres ou não seres…
Fecho os olhos e deixo a água escorrer, na esperança que leve para longe tudo o que me está entranhado em cada poro e aguarda por ser liberto, mas não…
Não leva…
Por mais que queira, e que te saiba inalcançável, não te consigo apagar assim de mim e, de olhos fechados e sentidos despertos, sonho, sou e sinto…

Miss Kitty

Eu não sei escrever…

Eu não sei escrever…
Limito-me a juntar palavras que constroem frases bonitas, como pedras de um qualquer castelo encantado, nas histórias de príncipes e princesas onde tudo é perfeito.
Amparo as letras que escorrem como gotas nas vidraças, lágrimas de dor ou felicidade que se vão conjugando no verbo da vida, onde afinal nada é tão perfeito e contos de fadas ou vidas encantadas só existem mesmo nos livros.
Crio poemas com rimas de palavras que se completam, como lábios que beijam transbordando sentimentos, e criando versos perfeitos que desvendam o íntimo mais oculto de mim, sem ser necessário interpretar entrelinhas, simplesmente beijar, escrevendo.
E todas as frases, letras e palavras são vida, moram no meu ser como inquilinas indesejadas de histórias mal contadas e beijos adiados, mas vivem em mim e incomodam, não como pedras de palácios de sonho mas sim pedras no sapato, que lentamente vou escrevendo e expulsando.
O mais difícil é expulsar aquele grão de areia, que de tão pequeno que é faz mais estragos que uma pedra e não tem forma de se alojar de maneira cómoda, quem sabe um dia esses beijos escritos o acomodem e aí sim, se torne mais uma pedra integrante do castelo de conto de fadas e entre frases e rimas a história finalmente termine com o “foram felizes para sempre…”.
E eu não sei escrever, mas vou vivendo… e escrevo.

Miss Kitty