A vida passa…

A vida passa, a um passo descompassado, gigante e acelerado, em que o destino é sina, dor que ninguém imagina, ou será talvez o meu fado, e o tempo inimigo e aliado, que me afasta apressado, de um passado tão indesejado.
Esse tempo é o meu fado, um fado mal fadado, de quereres, momentos e viveres, de tudo o que não foi alcançado, de um passado de prazeres, que a alma não saciaram, e no tempo perdidos ficaram, não passando de memórias, lendas fantasias ou histórias.
E no insistente presente, em que me foge o tempo, agarro-me aos parcos momentos, vivo sentimentos, neste coração parado, que na vida ficou estagnado, que com vontades se contenta, que o deixam triste e amargurado com uma falsa paz que o acalenta.
Mas esse passo apressado, que teima em não abrandar, e o tempo não parar, torna-se cada vez mais descompassado, e a sina da vida tenta mudar.

Miss Kitty

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Um dia normal…

Lembro-me como se fosse ontem, um dia que amanheceu igual a tantos outros dias de Verão, em que o cheiro a maresia vindo do rio acompanhava o estridente chilrear dos pássaros que teimosamente me acordam às 5:30 da manhã, quando o sol começa a antecipar o calor que se irá sentir.
Levanto-me preguiçosamente, tomo um duche, passo creme na pele e visto-me, não preciso de mais para me considerar arranjada, afinal á só mais um dia igual aos outros.
Como ainda tenho tempo tomo o café com calma e com a companhia de um livro e deixo-me levar pelo cheiro do café e pela história que leio avidamente. Quando dou pelas horas já estava atrasadíssima, agarro na mala e no meu livro e saio disparada para o elevador e pela porta do prédio quando esbarro com ele, tendo caído redonda no chão.
Ele prontamente estendeu a mão para me ajudar a levantar mas assim que me toca tenho uma sensação de choque eléctrico que me deixa a tremer e sem forças, é quando olho para cima e me perco. Não sei quanto tempo ficámos assim mas deve ter sido bonito de se ver, eu sentada no chão de mão dada com ele e ambos perdidos num olhar interminável.
Finalmente reagimos, levanto-me inebriada pelo seu perfume e presa no seu toque e olhar, perfume esse que me transporta momentaneamente para o livro que leio “Perfume”, algures espalhado no chão e que ele apanha e me dá com um sorriso, como se adivinhasse o que estava a pensar.
Neste misto de sensações em tudo avassaladoras e inesperadas, ele desculpa-se pois vinha distraído e convida-me para um café. Eu, atrasadíssima, nem me lembro disso e aceito. Passámos horas a falar, como se nos conhecesse-mos, como se fosse-mos parte um do outro.
Tínhamos tudo para além de uma química incontrolável, de repente percebemos que éramos perfeitos um para o outro, coisa impensável e sem explicação, pois nem eu nem ele acreditávamos em amor à primeira vista nem em almas gémeas, talvez pelos passados que tivemos que nos deixaram descrentes.
Uma coisa era certa, sem nos conhecermos amávamo-nos!
E a comprová-lo tivemos o beijo que ele me deu quando nos despedimos. Um beijo em silêncio, que disse tudo sem precisarmos de dizer mais nada. Doce, terno, carregado de sentimento e dado com todos os sentidos numa explosão de gostos, cheiros e desejos. Foi um beijo que não tem explicação, não sei se será possível defini-lo desta forma mas fizemos amor com esse beijo.
Ainda hoje lhe digo “Teria sido um dia normal sim se não te tivesse conhecido”.

Miss Kitty

O amor….

Alimentava-se da sede que lhe tinha.
Ela era como vinho, suave, aveludado que embriagava qualquer mortal, envelhecido, já adocicado, e escurecido como a cor rubra e luzidia dos seus lábios, que o enfeitiçavam cada vez que sorria.
Saciava-se na fome que lhe tinha.
Encontrava satisfação em cada milímetro de pele que ansiava degustar, cada poro que lhe cobria o corpo e, que sem se aperceber, despertava mais do que ela talvez desejasse, e conseguia sentir-lhe o gosto, assim de longe, como se este lhe estivesse cravado no palato.
Na sua presença todos os sentidos ficavam alerta, como se quisesse absorver toda a sua essência e guarda-la para si como jóia rara, diamante em bruto aguardando ser lapidado pelo toque suave dos seus dedos.
Tinha-se apaixonado, melhor ainda, amava-a…
Assim, do nada, amava-a, sem qualquer explicação, mas sentia-o e ansiava pelo momento de lhe revelar esse segredo, mas adiava-o…
O medo tolhia-lhe os gestos e as palavras e sem querer deixava que esse medo se alimentasse e saciasse dele, como um monstro que ia crescendo e amordaçando a sua alma, impedindo-a de se revelar. Sentia-se ameaçado, ansioso. O pânico de ser rejeitado e de voltar a sofrer agigantava-se e acomodou-se.
Nunca soube ler os seus sinais, desejava-a mas não percebia se era recíproco, até ao dia em que ela lhe diz que tinha que partir.
O medo de a perder venceu, todos os outros se dissiparam, como nuvens na eminência de um dia ensolarado, e foi a medo que lhe disse o que sentia.
Era recíproco, tanto o medo como o amor. Por medo não tinham ficado juntos há mais tempo mas agora nada receavam. Tinham-se um ao outro, largaram tudo, até os medos, e finalmente puderam alimentar-se e saciar-se um no outro.
Porque o amor consegue vencer todos os medos…

Miss Kitty