Mesmo que…

Mesmo que as almas estejam separadas… São uma!
Mesmo que não me vejas… Sentes-me!
Mesmo que não me toques… Tens o meu perfume entranhado!
Mesmo que não me beijes… Tens o meu gosto!
Mesmo que a carne arda de desejo, pela ausência forçada… Os teus dedos são os meus!
Mesmo que a sede te corroa… Cada gota minha te sacia!
Mesmo que à distância o teu corpo grite e reclame pelo meu… Endeusas o meu como um culto, e sinto-o!
Mesmo que estejamos separados… Fazes de mim o teu lar!
Mesmo que seja impossível… Abrigo-te!
Mesmo que estejas longe… Estou sempre em ti!

Miss Kitty

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Viagem prematura…

Era menina inocente, com sonhos na mente, e na sua inocência, pura e sem malícia, fazia magia e tornava o mundo uma delícia. Tudo era perfeito, a vida a seu jeito, de criança feliz, que fazia poesia dessa vida de fantasia e teve o que sempre quis.

A seu tempo cresceu, nesse mundo só seu, tornou-se mulher, de misteriosa sensualidade e a beleza da idade, uma poesia a interpretar, por quem a sabia amar. Gostava da vida, intensa e sentida, uma vida vivida, de fantasia e realidade, sentia-se realizada, era feliz de verdade, nesse sonho só seu, que desde menina cresceu.

Mas desse sonho acordou, tropeçou na realidade, de uma vida fria, e de sonhos vazia.

A menina inocente, da do sonho tão diferente, não fora poesia, cortaram-lhe as asas nem fizera magia. Na sua pureza, confrontada com a realidade, deixou-se levar com o imposto por não ter idade.

E nesse mundo onde cresceu, que em nada era o seu, tornou-se mulher que de poesia não tinha nada, não era amada, por todos rebaixada, ficou presa a uma vida, em nada sonhada, uma vida vazia, que de tanto se arrependia.

Tornou-se uma sombra, do que era de verdade, e o que mostrava não era a realidade, era o imposto, o que era suposto, o que queriam que fosse, ignorando o seu gosto. Nunca conseguiu ter a vida que queria, vestir a pele de viver, e fazer poesia, apenas existindo, num corpo tão belo, sensual e singelo, um corpo calado do prazer abandonado, de uma sensualidade que contraria a realidade, que ignorou o amor, por impossível ser, mas nunca perdeu a esperança de um dia o viver.

Mas não deixa de ser uma menina, mulher cheia de sonhos, que secretamente os escrevia em toda a sua poesia, na esperança que um dia se fizesse magia.

Miss Kitty

Sou Tua…


A pele implora…
O meu corpo pede…
Basta uma palavra…
E à tua vontade cede…
Amarras-me para não fugir…
Vendada atiças o desejo…
E a vontade de resistir…
Esvai-se com o toque e um beijo…
Provocas-me como gosto…
Percorres a minha pele nua…
Não controlo o meu gemido…
E sussurro ao ouvido “Sou tua”…
Paras tudo o que fazes…
Controlas o teu desejo…
E dizes baixinho “Amo-te”…
Seguido de um estrondoso beijo…
É a pele que se rende…
Numa alma que já se rendeu…
Neste corpo tão presente…
Que faz tudo para ser teu…

Miss Kitty

Insónias… de novo

As insónias são tramadas…

Parcas horas depois de me ter deitado, lá pelo meio da noite, acordei, a chuva parara, o universo conspirava para além do espaço confinado e silencioso do quarto, sem o barulho intermitente das gotas a bater nas vidraças, e devia conspirar contra mim…

Olhei na direcção da janela sem nenhuma vivacidade, como uma estátua de olhos rasos e vazios que por mais que pareça olhar nada vê em seu redor, e nada sente.

Durante alguns minutos vi fugir-me todo o ânimo como se assistisse ao correr da areia por entre os dedos, como se me fugisse o tempo, e queria dormir um pouco mais, desligar-me do mundo…

Isto é o que habitualmente diz quem tem insónias e que não prega olho em toda a noite, mas que julga ser capaz de ludibriar o sono só porque quer dormir um pouco mais.

As insónias  são tramadas, ainda de olhos fechados a minha mente é assaltada pelas palavras que se juntam em catadupa e que surgem do nada, como se seguissem um rumo próprio, jorram sem motivo e escrevo mentalmente tudo o que me consome a alma.

Medo, desejos, memórias passadas e sonhos de um futuro risonho e promissor, mas tudo isto não passa de ficção, pois o destino teima sempre em trocar as voltas à vida e às vezes lá consegue…

Já dava um livro…

As horas passam, todas as que foram imprescindíveis para que o sol nascesse lá fora, não aqui num quarto branco, frio e sombrio como este, que mesmo quando lá fora as nuvens permitem passar o sol, só entra aqui dentro um tipo de luar diurno, mas que lá fora começa a fazer com que as pessoas despertem lentamente e a custo para as suas vidas vazias numa manhã fria, aguardando pela morte que chegará um dia.

Perdida em devaneios penso como seria não acordar, estou cansada de insónias e de pensamentos perdidos escritos no ar e que, quer queira quer não, estão sempre presentes e guardados a sete chaves no móvel mais recôndito da minha mente e só se libertam nestes momentos, de certeza que se acabariam…

Credo! Que pensamentos tão mórbidos… É incrível o que a privação do sono faz, transforma-nos, mas eu não deixo, afasto-os abrindo os olhos e vendo. Grata, mesmo sem ter dormido, deixo que o quarto saia da penumbra e se ilumine dando vida à vida que sinto fugir nestes instantes e sorrio despertando para a vida, porque ela não espera para ser vivida…

Miss Kitty

Dividido…

Estava dividido…
Deambulava inconstantemente numa linha invisível entre o politicamente correcto que lhe era imposto pelos que o rodeavam, e tudo o resto, que o fazia sentir vivo acelerando-lhe o sangue nas veias e o bater do coração.
Não era errado querer ser feliz, à sua maneira é certo, mas genuinamente feliz, então, refugiava-se nos seus momentos onde fechava o baú das recordações, não que não fossem importantes, eram experiências de vida, ensinamentos que lhe deram a conhecer o que queria e não queria da vida, mas necessitava desses momentos só seus, onde imaginava toda uma outra existência acabando por se perder no tempo e no espaço num estágio de meditação profunda.
Por momentos a vida era perfeita, não estava cercado de gente falsa e hipócrita que lhe dava palmadinhas nas costas quando precisava dele e quando estava bem na vida fazendo tudo o que podia para o bem dos outros, mas que quando estava mal e não tinha nada para oferecer nem sequer lhe falavam nem tão pouco perguntavam ou se ofereciam se precisasse de algo. Sentia-se descartável.
Nestes instantes só seus, vivia. Sentia borboletas na barriga fruto da sua necessidade constante de estar apaixonado, por si próprio, pela vida e por amor, sentindo intensamente cada toque, cada aroma e cada nota da música que o acompanhava nesta sua viagem. Era rebelde, não seguia modas nem estereótipos de uma sociedade que o aprisionava, mas sempre respeitador, e vivia.
O velho relógio da torre da igreja deu as badaladas da praxe a cada hora fazendo-o despertar da sua vida perfeita idealizada e de repente deixou de viver, simplesmente existia, com a esperança constante de um dia despertar e continuar a viver.

Miss Kitty

Sobra em ti…

Sobra em ti tudo o que me falta, tudo o que preciso e que o melhor de mim exalta, o desassossego que cativa e liberta, a Paz sentida que me dá tanta calma, o cheiro de flor madura e aberta, que me inebria e eleva a Alma e pouco a pouco a mente desperta. Continuar a ler “Sobra em ti…”

No fio da navalha…

Ando no fio da navalha, às vezes corto-me… lá calha, são cicatrizes que permanecem, de momentos que dificilmente se esquecem, mas vivo com intensidade, entrego-me ao prazer de verdade, de santa que não sou e pecadora sem maldade.

Continuar a ler “No fio da navalha…”